domingo, 9 de dezembro de 2012

Da labuta prazerosa


Tanto mais
Escrevo
Escrevo
Escrevo 
Mais me dói o punho
E mais me alivia a alma.  

Gabriel Abreu

metrô


Nem todos os mais velhos conseguiram sentar-se, de maneira que alguns ainda tinham que ir em pé, cambaleando entro um solavanco e outro. Tantos eram os passageiros que não era mais preciso apoiar-se em nenhum lugar, ia-se espremido entre estranhos. Todos formavam uma só massa, que dentro do veículo-lata tomava forma viva, indestrutível. No fenômeno do lotado ignoram-se as convenções. Os costumes são todos deixados à porta, como guarda-chuvas deixados na entrada do seco para serem pegos de volta na saída, quando recobram sua utilidade. O único orgulho guardado é o do silêncio, que entre estranhos continua sempre o código comum de conduta. Não se conhece aquele no qual se encosta, o outro cujo rosto encosta no seu, as mãos estranhas que se esbarram constantemente. Se conhece apenas uma identidade, uma conformação pública de quem não reclama, de quem aceita o embaraço como parte do trajeto. E entre uma estação e outra saem alguns conformados e entram mais outros. Lentamente cada um encontra seu aperto, invadindo e tendo invadida toda e qualquer privacidade, mas evitando o olhar. O contato é presente em todas as formas, menos pelos olhos, iguais às putas, só que vestidas. Uma troca de olhares seria muito íntima e qualquer pudor que até então havia sendo evitado pelo senso de comunidade seria trazido à tona, arruinando a vida de todos. Por isso casa um cumpria seu dever e pelo bem do organismo olhavam para qualquer canto que fosse – as luzes fosforescentes, os mapas coloridos dos trajetos, o desenho dos postes de apoio no teto.
Num momento infeliz de pura má sorte dois trens atrasaram na partida de uma estação, fazendo com que os outros dois subsequentes que vinham atrás tivessem que parar, quebrando toda a sinfonia de máquina, no meio do escuro de um túnel, paralelos um ao outro, o início de um junto ao final do outro, ambos cheios de gente. O solavanco maior que os de costumes alardeou os passageiros que tomados de assalto deixaram o transe. Por descuido, distraídos de todas as normas, todos olharam para a tentação ao lado. Num instante de magnificência, dezenas de centenas de olhares foram trocados. De par em par, os passageiros dos dois trens encontraram um alguém com sua visão e a ilusão de muito tempo perdeu o sentido. O ar se encheu com o cheiro do terror e o silêncio que antes era de complacência era agora de pânico. Pânico não pelo parar do trem ao qual todos estavam acostumados, aquilo era frequente – era um questão de tempo até que voltasse a andar. O pavor se manifestando agora vinha junto da epifania coletiva, da realização do macabro. Todos perceberam que na verdade não eram passageiros de uma linha de transporte, mas sim gente dentro de metal em um túnel cavado debaixo da terra. E o metal, o túnel, e sua própria presença naquela mesma situação eram todos efeitos de sua deliberação. O que faziam ali, perguntavam-se uns aos outros com o olhar. Centenas de animais sem poder algum sobre o próprio destino, paralíticos com a familiar estampa do medo na cara, enterrados sob sua civilização. Em meio ao choque e ao desespero calado, a única coisa que tinham era a si mesmos. Na verdade nem isso: todos olhavam para alguém no vagão oposto e duas janelas separavam o abismo da solidão em que todos se encontravam do conforto de um último abraço entre irmãos. Alguns derrubaram lágrimas, outros perdiam a consciência, mas o silêncio era constante. O silêncio do incompreensível, do arrependimento, da impotência, da insignificância, do incrível, o silêncio dos inocentes e o dos culpados também. Não foi possível perceber o quão rápido tudo acontecera, o silêncio logo foi quebrado pelo barulho dos trilhos. Lentamente quebraram-se os laços e qualquer maravilha for ofuscada pelo movimento da máquina. Os passageiros logo acharam outro ponto para olhar e os dois trens seguiram, debaixo da terra, cheios de gente, cada qual para seu respectivo ponto final.

Gabriel Abreu 

sábado, 3 de novembro de 2012

Para Miriam, algo sobre borboletas.


As borboletas que voam no céu
São diferente das que ponho no papel.

Aquelas voam,
As minhas já pousaram.
Aquelas serelepam,
As minhas se cansaram.

Aquelas trazem sorte,
As minhas, inspiração.
São pro pólen o transporte,
São pra mim a minha razão.

Não são as duas a mesma coisa?
Não são as duas uma só?

Felizmente não:
Aquelas trazem beleza aos olhos,
As minhas trazem ao coração.

Gabriel Abreu

terça-feira, 30 de outubro de 2012

estro


Onde foi parar minha produção?

Produzia a mim
Produzia a ti
Produzia a ele
Produzia a nós
Produzia a voz

Onde foi calar minha voz,
Produzida a eles?

Minha obra se perdeu no atropelo de labuta meã.
Minha obra se venceu do cólera de poesia terçã.

Gabriel Abreu

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

meu sou


Queria eu também ser apenas o que se é.

À beira do Léman,
No arrebol da Romandia,
Me floresce no peito a certeza da vida.
E o segredo suíço é sabido,
À precisão da beleza,
À prudência da maravilha.

Minha desconfiança é plural, mas
o lago,
os alpes,
a neve,
e o nada dizem também respeito a mim.

Porque o mundo é dos apaixonados,
E a meu ver o que é se ser é ser assim.

Gabriel Abreu

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O prefácio das laranjas

No pátio da infância erguia-se uma laranjeira infinita. Dava sempre de boa vontade os frutos grandes que só se deixavam segurar com as duas mãos. Nem fazia questão que lhe subissem o tronco para arrancá-los: era partidária da não violência e simplesmente os deixava cair no solo. Viam aos montes, de modo que se não se prestasse atenção escureciam rapidamente e perdiam o sabor e a suculência. Não fazia mal, a planta não se incomodava de ter o esforço desperdiçado.  O importante era o suco de suas crianças. Dava também sombra em abundância. A grande mancha negra que lhe nascia pela manhã à esquerda a rodeava conforme passava o dia, como um siamês vigilante debruçado sobre a grama. Morria junto com o sol, alongada na outra extremidade do terreno, deixando mais uma vez a irmã solitária na penumbra das seis. Os ventos loucos do interior começavam então a soprar-lhe as incontáveis folhas, que gritavam alucinadas num caos frenético até o cair total da escuridão. Conseguia finalmente descansar os galhos violentados no sossego dos grilos cantantes, instigados pela coaxa das rãs, até que vinha mais uma manhã, quando começavam de novo os meninos a trepar-lhe a estrutura. Estava enraizada numa parte mais alta do quintal e viera à família com o terreno. Não se fazia ideia de sua idade, mas seu espírito era incansável. Laranjada após laranjada viu os noivos recém-casados se mudarem e começarem família, viu suas quatro meninas, uma a uma, nascerem e crescerem, as viu deixando a casa, retornando com sua própria prole. Viu surgir no correr de algumas gerações um emaranhado de parentes, de pais e sobrinhos, de sogras e cunhados, de tios e genros, de primos de intermináveis graus, todos seus afilhados. Viu plantarem afeto, colherem desavenças. Estava presente nas brigas, nas paixões. Presenciou todas as festas, entediava-se também aos domingos. Recebeu primeiro o patrono da estirpe quando ainda era jovem. Já era grandiosa na época, mas seu jardim era baldio. O moço tinha uns olhos azuis bondosos que pareciam cansados, mas que exibiam também um brilho tímido que as laranjas adivinharam ter por causa do matrimônio recente com a jovem que vinha ao seu lado. Ele pousou a palma da mão em seu caule largo e fechou os olhos pra acolher dali em diante o seu novo destino. A árvore fez o mesmo e foi pra sempre feliz. Anos depois houve uma tarde em que o sol estava em seu pino máximo, cegando a todos em pleno verão gaúcho. Passava pouco do meio-dia e como em todos os outros dias de verão quente a família se escondia na sombra fresca da casa em um meio sono depois de almoçar polenta e guisado. Como em um serpentário de jiboias bem alimentadas, todos descansavam ainda com o gosto da farinha de milho na boca. Estavam de férias. No pátio se estendia também como gente a cadela centenária, à qual faltavam quase todos os dentes, mas ainda eram pretos todos os pelos. Roncava alto perto do roseiral donde brotavam, apesar do janeiro abrasador do Rio Grande, as mais belas rosas da cidade, vermelhas de sangue em sua maioria, mas brancas em alguns poucos espaços, essas ainda maiores que as outras, como que para guardar o segredo da indecência rubra. Logo ali existia um parreiral que fora sempre cultivado pela jovem mulher do moço de olhos azuis, agora já uma anciã dona de diversas rugas, debaixo das quais, no entanto, exibia ainda o mesmo semblante forte de antigamente. Suas uvas verdes por natureza davam sempre impressão de pouco maduras, até que seu gosto gelado provava aos que se atreviam a brigar por elas com as abelhas que de fato as aparências enganam. Atrás, uma piscina modesta que na imaginação oceânica dos meninos virava mar. Ainda existia um pequeno terraço onde se subia por uma escadinha erguida ao lado da pequena horta e onde se estendiam roupas e sonhos, ambos tendo que dividir espaço com a antena monstruosa de televisão que com o tempo passou a servir para nada, mas que dali ninguém nunca tirou. Dali as crianças pulavam para o telhado da casa, laranja árido da mesma cor dos tijolos, o que dava à construção uma aparência Severina. No meio das telhas equilibravam-se três ou quatro chaminés que liberavam no inverno do Sul a fumaça do calor das lareiras. A parte em frente à casa era, como na maioria das residências do estado, um jardim de fachada, feito para os passantes, aos quais eram exibidos os mais bem cuidados arbustos, as mais coloridas violas tricolor, e as mais abundantes genistras, todas numa vitrine verde de paz e boa vizinhança. Ali as mulheres sentavam às tardes, de cuia cheia até a boca de erva mate e curiosidade absoluta para a vida dos outros. Na parte de trás da casa, onde tudo de fato ocorria, para delimitar a divisão entre grama e pedra, foi construída pelo próprio dono uma mureta de contenção, por que a terra de onde saiam as raízes da laranjeira vinha em nível mais alto, e o homem sentiu que não seria capaz de arrancar do solo o ser com o qual fizera um voto eterno de felicidade. Aquele murinho acabou virando palco de muitos espetáculos, onde as crianças interpretavam comédias e sofriam acidentes. Quase caindo também de cima do muro estava a laranjeira, que na tarde de que quase esqueci que estávamos falando descansava como o resto de sua família. De manhã haviam se pendurado em seus galhos e espremido os frutos da queda, haviam brincado em sua sombra e se apoiado em sua fortaleza. Haviam admirado suas folhas verdes máximas, seu tronco de cascas secas salientes, seu esplendor de vegetal maciço. Haviam como sempre na vida a usado de instrumento de regozijo. Ela não se incomodava, era esse o seu destino, seu alento, e também seu prazer. Gozava das risadas de suas crias, das conquistas de seus filhotes, da esperança de seus companheiros. Disfarçada na natureza do quintal plantou no cerne daquela família uma semente que germinou laços. Serviu a todos como se fosse a única coisa que soubesse fazer. A única coisa que soubesse fazer de melhor. E quando não servia mais pra nada, serviu de lenha pro calor da fumaça das três ou quatro chaminés do telhado laranja. Então até o final da fogueira e para o resto de sua vida protegeu seus meninos do frio.

Gabriel Abreu