quinta-feira, 4 de julho de 2013

Ela



Ela toca (e pega) fogo!
Intocável, insuperável, inalcançável e irreal também.
Delatora da arrogância alheia, cega à própria intransigência. Declara aos berros as suas certezas certamente mais certas que as da plateia que a ouve. Nem se dá conta de que fala sozinha, de que a verdadeira virtude é saber escutar. Sabe tudo e não sabe que nada sabe, que ninguém sabe nada, que sempre nunca se sabe mais e mais. Acha que soube agora tudo que há pra se saber. Hermética, um tanque de guerra de escotilha fechada pronto para botar abaixo toda e qualquer muralha a frente, mesmo que esta não esteja em seu caminho. Nada mais pode ficar de pé além da Verdade de v maiúsculo, a que diz que todos, menos os do contra, merecem ser ouvidos. E vai, a mil, como um ônibus que mal se prende ao chassi, carregando todo o passageiro companheiro, sabendo que chegará sã ao destino cada vez mais próximo. Sábia, sábia ela, que por não aceitar o assento em outro lugar, nunca vê, logo ali, o sabiá. 

Gabriel Abreu

segunda-feira, 1 de julho de 2013

algo sobre tempo


Choveu forte em minha vida. Choveu forte a vida inteira. Às vezes, ventava também. Fazia frio também, às vezes. Mas chovia o tempo inteiro. Ainda chove. Quem sou eu para falar do tempo? Não há rugas em minha cara. Não há fios brancos em meus cabelos. Não há legados para minha existência nem netos para meus pais. Não há história para meu nome, não há honra para meus textos. Não há glória, não há paz. Não há experiência para meus medos, não há conforto para minhas angústias. Há de haver? Sou virgem de tempo; para mim, há de sobra. Enquanto outros possuem só a sobra dele. A primavera que Florbela cantou assim florida ainda não despontou em minha vida. Agora somente chove e venta e faz frio no inverno de uma espera. Onde foi parar meu tempo? Será que ele algum dia existiu? Será que ele algum dia retornará? Numa das manhãs de minha velhice, quando não houver sonhado, levantarei de um travesseiro limpo uma face cheia de pregas e me olharei então no espelho de uma casa que não é minha. Eu não tinha este rosto de hoje, Cecília, assim calmo, assim triste, assim magro. Em qual dos outros espelhos da vida ficou perdida minha face? Ficou perdida minha fúria, minha alegria e meu vigor? Em que espelho fiquei perdido eu mesmo? O incomensurável tempo vai de segunda a domingo e cabe na moldura de um reflexo apressado, que logo reflete algo novo. E que logo esquece como eu me parecia. Na segunda, o tempo passa pro moço no ônibus, que leva seu filho num carrinho e que o olha perplexo, com orgulho e ciúmes. Que vale dele as próprias causas e que espera os êxitos pra si não mais possíveis. Que deixou de ser homem pra tornar-se herói. Na terça, o tempo passa para as árvores, de cujos galhos são arrancadas as folhas secas que pagam respeito à federação do tronco até o instante da queda na batalha do outono. Umas envelhecem laranja incendiadas, outras num rubro doente, e algumas até num violeta desavergonhado. Mas o fim vem pra todas, independentemente do quão verde um dia foram. Na quarta, o tempo passa para o relógio que não controla os ponteiros. Carregam sozinhos a pesada soma dos dias no total das semanas e o produto dos meses na potência dos anos. Vai ligeiro na frente o dos minutos e atrás, retardatário e cruel, o caçula das horas. Na quinta, tira-se o relógio da parede, mas os ponteiros de um outro continuam rodando sem prestar atenção em mim. Que se quebrem todos os relógios do mundo para que nunca novamente saibamos quando sorrir e quando chorar! Na sexta, o tempo passa para o menino, que, em algum momento dos últimos segundos, tornou-se gente grande e deixou a doçura da infância pra nunca mais parar de amargar o sabor acre da madureza. No sábado, o tempo não passa para ninguém. No domingo, o tempo passa pra mim que mal o percebo passar. Dane-se minha idade! Vivi tempo suficiente apenas pra saber que preciso viver mais. Mas o tempo escorre por meus dedos e faz questão de se sentir escorrer. Faz questão de encurtar a alvorada de minha noite, Florbela! Tome tempo!, um pouco de realidade Espanca. Que da ilusão de seus ponteiros ninguém se ilude mais. Ninguém aguenta mais se iludir.

E que termine meu dia num crepúsculo atemporal.
Que para o tempo me saiba ceder... Para se eternizar...

Gabriel Abreu

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Do prêmio derradeiro


Sou o pior,
Sou o menos,
O esquecido depois de todos,
Aquele por último, vês?

O coitado no escuro,
De quem não lembraram os que foram à luz.
Não lembras de mim, lembras?

Foram todos ser melhores,
Melhores que os melhores,

E esqueceram para sempre do pior dos piores,
Feliz com o título de mais pior de todos.

Gabriel Abreu

terça-feira, 7 de maio de 2013

O sol que não se põem


Meu amor é sol,
Astro imenso que surge da escuridão no nascer de um novo dia,
Bola de fogo de tão suma importância,
A quem ninguém consegue olhar diretamente tamanha sua beleza,
Que brilha em seu esplendor maior,
Mas que se desespera quando sente seu declínio,
E leva tudo consigo,
Prevê seu fim e explode em desespero,
Tinge tudo o que alcança em alaranjado doído,
Grita e ateia fogo em todas as nuvens,
Chama atenção de tudo e todos sobre quem brilha,
Em alvorada de pânico,
Muda a cor de todas as coisas e todos os seres,
Sem deixar ninguém passar despercebido pelo poder de sua voz:
Magnífica no berço,
Radiante a pino,
Mas,
Somente na morte,
Transcendental,
E sufoca aos poucos no horizonte,
Engolida pouco a pouco pela própria terra,
Até que o último brilho,
A última cor,
O último resto de dia,
Apaga,
Levando consigo toda memória e qualquer esperança que uma vez raiaram,
E me deixa sozinho no escuro,
Sem poder ver o que não aguentaria enxergar,
Sob o céu de outros muito mais amores,
Que brilham em outros tantos corações,
E que hão também de morrer,
Em seus próprios tempos,
Em seus próprios pores,
Cada qual com sua lua,
Mas todos na mesma minha escuridão.

Até seu próximo nascente.

Foi na minha noite mais escura que meu sol brilhou mais forte,
E que pra sempre deixou de se pôr.  

Gabriel Abreu

quarta-feira, 1 de maio de 2013


Adoro saber estar sendo olhado por alguém que não saiba que disso sei. Melhor ainda é quando quem olha é um desconhecido. Podemos então causar a primeira impressão que quisermos. Posso ser um lunático que vagueia sozinho, um galã da vida real ou um artista perturbado que senta no último banco do ônibus. Pouco importa, porque aquele você vai embora assim que quem olha pisca. O problema é quando se quer ser aquela primeira impressão pra sempre, quando ela tem importância. Aí quem tem que se olhar sou eu mesmo, e dessa vez sem que eu saiba. Mas não há motivo pra alarme, porque há sempre uma primeira chance de causar uma segunda impressão.

Gabriel Abreu