domingo, 22 de abril de 2012

R.G.A., 3ª da série

 Estive revendo os últimos comentários feitos no blog. Me chamaram atenção, no texto do Gabriel que fala sobre seu momento de epifania nas cataratas do Iguaçu, alguns que me fizeram pensar. Discutir religião e afins não costuma ser uma boa opção, mas quem se importa?

 O ponto de partida foi o Gabriel sendo tocado por Deus no mirante, vendo uma cachoeira. O que induziu o tema: elementos grandiosos da natureza, ou grandes fenômenos naturais, como já comentou em outra ocasião, servindo como prova de Sua existência. Que por serem bastante simples, foram substituídos por coisas mais complexas e elementares na evolução do raciocínio: a alta complexidade e falta de conhecimento sobre determinados elementos principais do ser humano, da vida, do universo, servindo como prova de Sua existência. Aliás, "provas inexoráveis que a ciência tanto acusa as religiões de não possuírem", segundo Gabriel. É nesse ponto que eu sou obrigado a interferir. Sob meu ponto de vista, algo por si só não serve de prova, muito menos inexorável, tanto para as teorias religiosas quanto científicas. O princípio de que o universo, o mundo, o cérebro humano, a célula, o átomo são complexos demais para terem sido criados por acaso é completamente inválido.

 A origem do universo é desconhecida. Existem centenas de teorias que a tentam explicar, porém nenhuma delas é provada. Acho que as leis da física, a estrutura dos átomos, a vida, sempre serão os maiores mistérios de todos. Acho inclusive uma pretensão imensa pensar que tem a resposta para qualquer uma dessas perguntas. Deus. Deus explica qualquer questionamento sobre a existência. Deus aniquila a filosofia. Apesar de que Deus é um conceito muito amplo. Para deixar claro, eu estou falando daquele onisciente, onipotente, onipresente que criou o mundo. Bem, vou discutir logo os pontos principais.

 A prova da existência de Deus através da complexidade do ser humano, da vida, dos ecossistemas e afins.
Muito se fala do cérebro humano como se fosse impossível ser fruto do acaso, e que só um ser divino, perfeito, oni-tudo poderia criá-lo. Eu penso que ele é fruto de dois bilhões de anos de evolução. Que ele veio do cérebro menos desenvolvido do macaco, que veio do menos desenvolvido de um mamífero longínquo, que veio do menos desenvolvido de um réptil, que veio do menos desenvolvido de um anfíbio, que veio do menos desenvolvido de um peixe, até que chegamos aos seres unicelulares, desprovidos de cérebro. Aí entra o argumento: "Qual é a chance de evoluir exatamente da maneira que condiciona todas as capacidades e a complexidade do nosso cérebro? Alguém no mínimo teve que intervir." A chance de acontecer uma mutação aleatória que torne um indivíduo mais apto para a sua sobrevivência, e que ele consiga passar essa característica adiante é ridiculamente mínima, porém, como eu disse, tivemos dois bilhões de anos desde o surgimento da vida para conseguir isso. De 0,1% em 0,1% de probabilidade ao longo do devido tempo, podem-se construir as formas mais complexas de vida. Me parece totalmente plausível.

 A prova da existência de Deus através da existência da vida.
"Porque é impossível que a vida se crie sozinha, por acaso." De novo, tivemos 2,5 bilhões de anos desde o surgimento da Terra até o surgimento da vida, nos quais zilhões de átomos e moléculas se combinaram de zilhões de formas diferentes, tornando, para mim, completamente possível o surgimento de material genético. E convenhamos que a forma mais simples de vida que acreditamos ter existido, eu diria uma bolota com genes dentro, não é algo muito difícil de se conseguir.

 A grande questão é que qualquer teoria científica, inclusive a Evolução e o Big Bang, que são aqui relevantes, é formulada com base em inúmeros dados, números, pesquisas, estatísticas, sobre os quais são tiradas conclusões lógicas. Porque existe um abismo gigantesco de evidências que separa uma teoria aceita em quase todo o meio científico de um idiota falando besteira. E falar besteira é muito fácil. Não digo que é o caso, mas não consigo ver sentido em passar da observação direto para a conclusão, pulando a parte das hipóteses, coleta de dados, testes e tudo mais. "O cérebro é complexo, logo Deus criou o mundo", "O comportamento físico do elétron é contraditório e desconhecido, logo Deus criou o mundo", "A cachoeira é grande e faz barulho, logo Deus criou o mundo" (né, Gabriel?) pra mim são frases absolutamente sem sentido, e elas descrevem exatamente o que me parece quando me falam sobre provar que Deus existe. 

 Aliás, eu acho conveniente inverter esse argumento da complexidade. Eu acho que tudo é complexo demais pra ter sido criado. Faz mais sentido pensar que o mundo e a vida como conhecemos foram lapidados ao longo do tempo, pouco a pouco, detalhe por detalhe, e gradativamente formaram essa obra de arte que nos cerca, do que pensar que alguém muito foda estalou os dedos e criou o universo. É como uma pintura não ter sido pintada, uma música não ter sido composta, um prédio não ter sido erguido, simplesmente ficarem prontos.

 Para finalizar, deixo claro que tenho consciência de que, igualmente, as teorias citadas não em prova, só fazem mais sentido para mim, e de que os dados são muito imprecisos, existem muitas especulações diferentes sobre a idade da Terra e o surgimento da vida. Também entendo que Deus, ou alguma Força sobrenatural podem ser vistos de muitas formas diferentes, e talvez eu tenha puxado para a que mais me foi conveniente, ou a que mais contradizia com o que estava tentando dizer, a fim de reforçar meu argumento, o que pode até ser contraditório, pois posso ter tratado de Deus sob pontos de vista diferentes ao longo do texto, e por isso me desculpo. Só espero que tenha dado para entender.

domingo, 8 de abril de 2012

Que é pro mundo ficar Odara


Num domingo público, Marcos sentou num banco chuvoso da General Osório. A praça estava vazia, eram Marcos, uns poucos mendigos e umas pombas gordas. Ele desenterrou um cigarro do decote e o acendeu com um dos fósforos da caixinha que trazia na minúscula bolsa dourada. Mal chagara às cinco da manhã, e já não era mais Odara. Odara havia ficado na noite, onde ele sempre a encontrava, deleitada no direito da imaginação, desnorteando a realidade. Agora restavam-lhe apenas o forte batom borrado que lhe irritava os lábios, a vulgar meia-calça rasgada há tempos, um orgulho pouco e o gênero que carregara a vida inteira. Marcos já sacava o segundo cigarro quando percebeu uma mulher indo trabalhar. Levava uma sobrinha e uma mochila pendurada nas costas. Vestia roupas simples, e apesar dos culotes salientes e dos seios pequenos era uma moça bonita, de cabelos fartos e feminilidade importante. Marcos pousara sem perceber as corajosas mãos nos peitos caros. Brotou-lhe então dos olhos desbotados, que ainda fitavam a moça, uma lágrima carente. Uma pétala de vontade que exibia aos pedintes e aos pássaros um estranho evidente, um desorganizado sentado na garoa de Ipanema que havia sempre na vida procurado a ausência do poder que lhe era justamente muito presente. Quando a menina sumiu numa esquina, Marcos enxugou como um homem a gota do rosto maquiado, empréstimo de Odara, e se levantou do banco, acendendo por fim o terceiro cigarro. Bruta flor do querer, de expediente terminado,  foi pra casa cambaleando sobre os saltos finos. 

domingo, 1 de abril de 2012

o gergelim de domingo


Pobre Caio, não conseguia mais escrever. Tinha a caneta e o papel, mas faltava-lhe a força nos dedos. No mundo a coisa que lhe dava mais prazer era agora aquilo do que justamente era privado: o prazer da manifestação. Um pequeno refúgio dos homens no qual não era mais gado. Não era enganado e contava a verdade aos outros. Onde o despudor era palpável. Onde o poder era entusiasmo, com que se fazia prodígio. Onde a excitação, que por mais que presente apenas no ato, era o alicerce de sua alegria e o gergelim de seu próprio ente. Mas tão simplesmente assim, escapara-lhe o dom. Deixara escapar. Extraviara o rosto debaixo da maquiagem que dava o cunho à atuação.  Sentia-se agora humilhado, com vergonha de si mesmo. Tornou-se ordinário e rotineiro. Covarde que era, prestava ao trabalho e aos querentes, preso na ignorância do Mundo, ciente de que o mundo na verdade não tem nome. Mas não de propósito, era apenas um coitado mudo. Às vezes ainda jogava-se ao mar e, sem atentar à sujeira, mergulhava fundo a cabeça na água. Ali ainda conseguia uns longos resquícios do que sentia falta. Na superfície do corpo uma indolência forçada. Era os restos apáticos de um rapaz feliz, boiando sozinho. Percebendo pelo dentro das ondas a pulsão criativa da natureza. Até que era obrigado a outra vez buscar no exterior o fôlego que não encontrava mais dentro de si.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

esboço positivo


Não há remédio àqueles que sofrem da peste da angustia crônica. Da incerteza esporádica, da aflição companheira. A das visitas ocasionais, nas quais entra sem bater e senta gorda ao coração com um sorriso arrogante na cara. Sorriso de quem sabe ter submissos a si nós, os angustiados. Quando se nasce assim acostuma-se com o tempo. A indecisão vira um vício, uma mania ociosa. O sintoma é um só: o questionamento. De tudo. E sem ter como objetivo obter uma resposta. É essa falta de rumo que nos assombra. Minto; não falta de rumo, mas o excesso deles. Aí se enobrece o desespero. Todos os cálculos que antecedem uma decisão tentando antecipar as suas conseqüências, todo o esforço para evitar o arrependimento (porque para os que nesse caem, coitados, não há saída) e ainda de novo a dúvida entre continuar no infortúnio medíocre ou se arriscar na tentativa de uma guinada rumo à ventura. Ah!, a guinada. Vestida na pele de cordeiro, na qual tantos se perdem. Olha aí outro medo. É a romaria nossa, acostumados ao penar da sensação. Aos quais o violento sopro da realidade bate mais gélido. A quem de supetão a vida exibe, sem juízo nem precedente, as consistentes tetas, às quais não se tem reação e fica se pensando no que fazer. Há quem diga “as agarre!”. Eu diria também. Viveríamos num bacanal caótico, “sem guerra e sem glória”, animais felizes, como Deus criou. Mas o que o humano uniu, o homem não separa. E assim se segue, procurando algo ou alguém temporário que aquiete o espírito em meio a essa moral de rebanho, onde morrem e nascem os trabalhadores, os artistas e as putas.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Gênesis

E depois de muitos meses eu lembro que tenho um blog. Eu não, Gabriel me lembra. Enfim, vos venho anunciar que, durante essas férias, me pus a ler o Gênesis, primeiro livro da Bíblia Sagrada. Para muitos pode parecer muito absurdo, devido à minha (falta de) espiritualidade, porém adianto que o motivo para isso não passa de curiosidade. Pois bem.

Que Deus criou o mundo os cristãos já sabiam, porém uma coisa me intrigou nessa história. Digo, mais do que normalmente o criacionismo já me intriga... Durante o primeiro dia, criou os céus, a terra e a luz. No segundo, fez umas remodelagens. No terceiro, separou mares e continentes e criou os vegetais. No quarto, fez o sol, a lua, e as estrelas. No quinto, criou as aves e animais marinhos. Por fim, no dia sexto, criou animais terrestres e, à sua imagem, homem e mulher.

Vamos analisar, deixo claro que sob meu ponto de vista, cada um dos dias separadamente:
Dia primeiro: no problem.
Dia segundo: OK.
Dia terceiro: certo...
Dia quarto: Me parece que falta alguma coisa. Os luminares criados por Deus são definidos como o maior para governar o dia, e o menor para governar a noite, além das estrelas. Porém à terra também chegam a luz proveniente de outros planetas do sistema solar e objetos espaciais como quasares e outras galáxias ativas. O que não vemos a olho nu mas também acharia relevante ser comentado, são os satélites desses planetas, assim como exoplanetas, além de poeira interestelar, matéria escura e etc. Também acho que, no mínimo, deveria ser explicado que Deus pôs as galáxias em movimento tal, que todas se afastam de um mesmo ponto, para induzir cientistas erroneamente à teoria do Big Bang.
Dia quinto: no problem.
Dia sexto: Aí Deus cria animais terrestres, incluindo o homem. Sabemos, por meio de estudo de fósseis, que há muito tempo atrás, existiram animais terrestres muito grandes, os quais chamamos hoje em dia de dinossauros. A única possibilidade para sua existência, que já é comprovada, é que tenham sido criados nesse dia, por serem répteis. Porém a sua extinção, que eu acho algo muito relevante, não é comentada em nenhum momento. Pode ser também que nunca tenham existido, porém deveria ser dito pelo menos que Deus criou os fósseis (falsos!) debaixo da terra. De qualquer maneira, poderiam ter no mínimo informado que Deus manipulou a quantidade de isótopos radioativos nas rochas para induzir cientistas a acreditarem erroneamente, através da datação radiométrica, que a Terra tem bilhões de anos.
Dia sétimo: Depois de ter criado os reinos Animalia e Plantae, Deus descansou e se esqueceu do Fungi, Protista e Monera, mas parece que se criaram sozinhos.

Para que o post não fique muito longo, vou deixar a Arca de Noé para o próximo.

Aos que chegaram até aqui, peço suas opiniões, tanto de criacionistas como... não-criacionistas, tanto de ateus como de teístas, se não for pedir demais...

P.S.: Deixo claro que respeito vigorosamente qualquer crença, isso é só a minha maneira de ver as coisas.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

melancolia cor de rosa

À avó que chamávamos de Îde.



“Aqui jazo, jovem”, me declara a nostalgia. À ela cheira a casa que há pouco foi apresentada também ao hálito tétrico de um adeus definitivo. Soa lúgubre, mas essa não é a intenção. Na realidade a atmosfera da casa que é agora órfã da matriarca é repleta por uma melancolia cor de rosa. “Um jeito romântico de ficar triste”. Como o sossego que sucede uma chuva forte e deixa no ar o aroma de terra molhada e do sigilo de uma família que se encontra numa magoada poça de alívio. Ou ainda o silêncio que precede a tempestade silenciosa de neve que atapeta as calçadas e sufoca nossas angústias.  Da doença antiga resultara apenas um sopro de vida e a previsão de um fim cedo do qual todos estavam avisados. Agora ficamos perdidos em fotografias de há uma infância atrás, achando sussurros de memórias passadas. Encontrando inusitadamente elementos que o tempo consumiu e cuja falta faz o mundo parecer um lugar mais alheio e menos original: Os verões campestres a cavalo, a criatividade inocente e marginal, o valor dado ao simples, a apreciação do ócio, os acasos que reuniam quem hoje não encontra reconciliação. A inexistência de dores de cabeça, a inércia emocional, a ignorância espontânea. Lembranças que me fazem desconsiderar o agora, e similares as quais outras terei quando for adulto e me lembrar da época distante que vivo atualmente. Nesse carrossel da nossa existência, presos numa nostalgia cíclica, choramos presentemente insatisfeitos as lágrimas da vida. Talvez o princípio seja de fato a melhor fase dela por não haver antes nada do que possamos nos lembrar. Durante o seu decorrer perdemos alguns, ganhamos outros, permanece apenas o espírito da família que há muitos anos atrás foi criada por quem hoje é velho e carrega nas rugas o nascimento dos filhos, a infância dos netos, o desprazer dos cônjuges. Os sofrimentos da estirpe, os seus próprios e os pêsames da aliança que proveio do esposo um velho feliz, dono hoje da saudosa noção de que a vida segue e tem de ser seguida.

domingo, 4 de dezembro de 2011

escrevo, por que mulheres

Às mulheres:

Concordo quando dizem que nosso blog tem um tom epifânico. Na verdade é uma das coisas que mais admiro em nossas palavras. Mas o que percebi ultimamente é que temos nesse incrível canal de comunicação uma deficiência de textos que tratam de uma particular área dos assuntos do coração: a mais vulnerável ao exterior, a que responsabiliza-se por pertencer a outra pessoa que não a nós mesmos e por todas as consequências que sejam acarretadas por esse ato. A que foge ao nosso domínio. Acredito que Caio e eu muitas vezes deixamos inconscientemente de discursar sobre o assunto. Pois deu-me vontade de fazê-lo. Epifanicamente me gritou a ideia de que muitas vezes é esse o maior mistério nosso, aquele que nos faz obedecer o irracional. Talvez a razão pela falta de comodidade para tratar do assunto seja justamente o quão levianos somos a elas, mulheres. Frágeis. Submissos. Sujeito-me a quaisquer atormentações, dores e nostalgias pelos breves eternos momentos nossos. Pela certeza, quando se acha certeza em uma delas, de lealdade e dedicação. Mulheres que nos afagam, que nos protegem, nos sorriem. Nos insuflam o ego, nos mantêm seus, e que de um infinito delas fazem nossos sonhos. Mudam nossas ideias e ideais. Nos põe em conflito com nos mesmos, com nossos juízos. Que me fazem amar me apaixonar. Porque até agora não há nesse mundo nada igual ao olhar de uma mulher no qual me vejo amado. No qual me vejo amando. Me vejo voltando à elas todas as minhas atenções, todos os meus pensamentos. Me vejo sorrindo por elas. E chorando por elas. Descobrindo juntos as estruturas do amar, do odiar, dos ciúmes. Compartilhando decepções, expectativas, contatos. Mulheres que me permitem entender, citando agora García Marquez, por que os homens têm medo da morte. Não só por que têm medo da morte, mas também por que pintam, por que compõem, por que constroem. Por que escrevem: mulheres, por que “não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar“, por que “amor é ter com quem nos mata lealdade“, por que “as mais lindas palavras de amor são ditas no silêncio de um olhar“, por que “não amo bastante ou demais a mim“, por que são “a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois“. Que fazem o “meu coração vagabundo querer guardar o mundo em mim“. Querer guardar nossos instantes, nossos segredos, nossas intimidades, nossa escorregadia realidade capturada pelos sentimentos que carecem do valor da palavra escrita. Guardar a ilusão verossímil em que vivemos, vedada ao gosto do afeto violento que acre-adoça o meu coração.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Rentabilidade do Conhecimento

A Edgar Lyra, quem me narrou à minha paixão.


Millôr Fernandes era cético e afirmou certa vez sobre esse estilo de vida: “Vocês não sabem como é divertido o absoluto ceticismo. Pode-se brincar com a hipocrisia alheia como quem brinca com a roleta russa com a certeza de que a arma está descarregada.”

Brinquei hoje, em silêncio, pois apesar de ser também fã do ceticismo, não o sou dos alvoroços, de roleta russa com a parvoíce de minhas “peer conselours“, que estão aparentemente a minha inteira disposição para me ajudar a impor a mim mesmo metas e meios pelos quais a elas devo chegar com o propósito de facilitar a melhora de minhas habilidades. Durante duas horas escutei dois membros do corpo docente da mais prestigiada instituição de ensino na área de hospitalidade no mundo me aconselharem (como o próprio termo em inglês propõe) a como eu devo estabelecer feições exatas da minha personalidade que devo manter bem desenvolvidas, se for esse o caso, ou que devo melhorar, se elas não suficientemente desenvolvidas forem. Ouvi discursarem como é essencial, tanto em nossas vidas profissionais quanto pessoais, que progridamos rumo a um ideal, um profissional mais completo, mais cabal, visando a um maior sucesso em futuras relações empresariais com um possível maior lucro. Tudo isso feito por meio de um software de computador, um programa no qual encontram-se diversos formulário que devemos preencher da forma mais fiel possível para que o sistema possa, da forma mais adequada, nos guiar por nossa auto-evolução. Assisti duas mulheres mais velhas que eu, certamente muito bem academicamente formadas, me apresentarem esse método, que é agora testado pela primeira vez na Europa, e me senti acanhado pela ideia de que as considerava inteiramente ingénuas e pelo fato de não ter sido prestígio, mas sim ilusão, o que vi no projeto. Senti saudades de minhas aulas de filosofia e da admiração que sentia pelo mestre que as ministrava. “As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras”, disse uma vez meu então (e eterno) projeto predileto, Nietzche, expressando de modo tão magistral - o que também tento exaustivamente fazer - o que agora quero dizer. Contristou-me a lembrança dos sopros de genialidade aos quais éramos expostos durante as sessões nas quais não éramos ensinados a como equalizar o próprio aperfeiçoamento através de uma máquina, mas sim cultivados pela investigação das grandes causas e dos grandes efeitos, pelo questionamento de primazia de nossa razão e da validade de nossas crenças e do nosso conhecimento, pelo amor ao saber. Nas quais éramos aduzidos aos verdadeiros problemas da imparidade humana, da prudência de nossa identidade, da reflexão sobre os mecanismos do amor, da inconstância da felicidade, da meditação sobre a possível irresolução da Verdade. Me ocorreu então que, de fato, o que de mais magnífico que poderíamos possuir naquilo que conhecemos agora como nossa curta existência é justamente aquilo que de nós nunca pode ser tomado: nosso saber. Me senti então verdadeiramente prestigiado. Prestigiado por saber daquilo que hoje sei, e por saber que disso saberei para o resto da minha vida. Por saber da minha paixão pela filosofia e suas entranhas, e por saber que é dela a maior rentabilidade que terei como profissional e como cidadão: terei sempre o lucro de poder sentir, de poder compreender e de poder criar. Terei o eterno lucro de viver. Isso para mim é prestígio.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

From Switzerland

Desculpem pela demora e também pelo texto se esse estiver ruim. Me faz faltam a língua mãe e tempo.


Para aqueles que falam inglês:

http://www.youtube.com/watch?v=f_qhdPflUb8&feature=results_main&playnext=1&list=PL853B97E60C748A46

Para os que não, o vídeo mostra basicamente a autora de “Comer Rezar Amar“, Elizabeth Gilbert, descrevendo o “dilema do porco-espinho“ de Arthur Schopenhauer, que trata dos desafios da intimidade humana. Quando um grupo de porcos-espinhos, durante o frio, procura calor aproximando-se uns dos outros, eles se ferem com seus espinhos e não podem continuar juntos. Logo, se afastam. Mas sentem frio novamente, e, mais uma vez, se aproximam sem conseguir evitar a dor que causam aos outros de sua espécie. “Essa dança de intimidade“, como descreve a autora, mostra analogicamente a inevitabilidade da ocorrência de dano a ambas as partes que dela partilham, mas que relevam essa dor quando se encontram novamente sós. Aqueles que são capazes de geram o próprio calor, conseguem manter uma distância segura dos outros, o que não necessariamente significa viver uma vida de introversão ou isolação. Moderação é recomendada nos relacionamentos tanto para o melhor de si mesmo, quanto para o dos outros.

Soa fácil. No entanto acho que o destino da maioria dos seres humanos é ser espetado até a morte. Achar um equilíbrio nesse sentido é, muitas vezes, impossível. Acredito que somos tão atraídos pelo calor citado acima, que não levamos nada em conta senão o conforto que a proximidade nos oferece. Conforto o qual, como mostrado por Schopenhauer, se torna inevitavelmente em mágoa em algum momento. Criar um espaço de independência emocional é sem dúvida o jeito mais fácil de ser feliz. O certo (e também o difícil) é aceitar esse espaço como um intervalo necessário, e não como isolamento. Recentemente senti na pele a ignorância humana com relação a esse assunto. Embebido no aconchego da família e dos amigos, pelos quais fui espetado e os quais espetei durante meus dezoito anos de vida, senti o baque da solidão assim que pisei na sala de embarque do voo que me levaria para longe de todo o meu suporte e apoio que me proviam de asilo até então. Antes daquele momento, sem viver de fato apartado de todo esse amparo, não havia ainda compreendido o quão determinante no equilíbrio emocional de uma pessoa é a familiaridade. Fui abatido e abatido fiquei por alguns poucos dias que naquela situação me prostraram como meses prostrariam normalmente. Montei a incerteza sem escora e quase caí do cavalo. Assim como todos nós quase caímos ou quase cairemos uma vez na vida, todos por não possuir a sela apropriada. Com o tempo se estabiliza o animal. Faz-se novas amizades, vê-se que não se perderá as antigas. Encontra-se novos sustentos, mantêm-se também os velhos. Se reafirma a rotina, se confirma os hábitos e os costumes, e assim se reproduz novamente a vida. Com os mesmo laços de afeição recíproca e muitas vezes inocentemente mal medida, cedendo a todas as dependências em busca de balanço sem nos darmos conta de que o nosso equilíbrio tem de ser descoberto não nos outros, mas sim em nós mesmos. É isso o mais importante: além de amigos, de amores, de prazeres, seja responsável primeiro pelo próprio contentamento autônomo. É disso que agora estou constantemente em busca.


“A dor é inevitável, o sofrimento é opcional“ Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A linda história de Rafael e Rafaela

Rafael era um merda na vida. Não o merda clichê que é desonesto e tira notas baixas. Ele ganhava bem e tal, só era meio escroto. Então era um merda. Como não podia ser diferente, um dia conheceu a menina. Rafaela. Só que comeu a irmã dela, só que ela nunca soube. Então não tem problema. Como não podia ser diferente, Rafaela era o oposto de Rafael, em muitos sentidos, com algumas exceções. O nome por exemplo. Rafael gostava de Led Zeppelin e Rafaela de Grand Funk Railroad. Certo dia Rafael disse "Led é melhor!", Rafaela respondeu "Não! Grand Funk é melhor!!". E não se falaram por sete dias e sete noites. Rafaela chorou e Rafael riu. Rafaela era pobre e queria a mordomia oferecida por Rafael, então voltou com ele. Rafael era mesmo escroto.

Passada a introdução aleatória, transformemos a história em uma função do tempo. Como não podia ser diferente, se conheceram na faculdade. Rafael era aquele das melhores notas e piores piadas. Rafaela era o contrário. Mas era bonita, então compensava as notas. O que conquistou mesmo Rafael foram as piadas. Foi só comentar "por acaso" sobre seu CR e chamar pra sair que foi fácil assim. Esperou-a fazer uma piada e pegou. Pegou e ficou. Namoraram logo depois (como não podia ser diferente). Seu CR caiu um décimo, isso prejudicou o relacionamento. Deu mais atenção aos estudos, e menos atenção às piadas. E ela pensava em se casar porque já não aguentava sua vida medíocre. Certo dia Rafaela disse "Vamos nos casar amor!", e Rafael "Adoro suas piadas amor!!". E não se falaram por sete dias e sete noites. Ele se deu conta de que sua vida era mais feliz rindo mais e transando com uma gostosa, então voltou com ela. Escroto. O dia em que se casaram foi tão feliz. Cada um atingindo seus interesses e confortos. Rafael podia se gabar para os amigos para sempre agora. Rafaela deu level up em sua conta bancária. O casal perfeito. E foram muitos felizes, apesar das diferenças (como não podia ser diferente). Apesar das brigas. Rafael comia brigadeiro, Rafaela palia italiana. Rafael escondia o biscoito de maisena. Rafaela enchia a dispensa. Um dia ela descobriu o esconderijo: debaixo da cama. Isso explicava os ratos e baratas que rondavam no quarto. Demorou sete dias e sete noites para limpar aquela podridão, e ainda deu-lhe um esporro. Ele não se abalou e deu-lhe um cartão de crédito. Problema resolvido.

Como todos sabemos, e não podia ser diferente, nada é para sempre. A ruína do casamento do casal feliz não se deu por causa das brigas. Foi pela convivência. Não pelos problemas trazidos por ela, mas sim pelas vantagens. Rafael lhe ensinou a ser determinada, focada, dedicada. Ela fez pós e conseguiu um bom emprego. Rafaela lhe ensinou a ser sociável, amigável, gentil e engraçado. E os dois pensavam: "Sendo rico e engraçado, o mundo é meu". E se aventuraram, cada um por si, a conquistar o mundo. Ambos de cabeça erguida e satisfeitos com a vida. Quem precisa de um casal perfeito, quando já se é perfeito por si só?



Agradeço a Gabriel por ter-me deixado copiar o nome do protagonista. E a ideia de escrever ficção. Mesmo que não lhe tenha pedido.