domingo, 20 de julho de 2014

Na presença de Marina

Isso não é uma crítica, apenas o registro de uma experiência que não quero nunca esquecer.

Marina Abramovic em Londres! A coincidência de estar na mesma cidade onde a última obra da artista está aberta ao público não podia ser ignorada. Eu conheci o trabalho de Marina pelo documentário “Marina Abramovic: The Artist Is Present” que mostrava toda trajetória de sua carreira até a preparação e execução de seu último trabalho, de mesmo nome, que foi exposto no MoMA em Nova Iorque há alguns anos atrás. Daquela vez, Marina passava horas a fio sentada em frente a quem se dispusesse a vir visitá-la. As filas eram enormes e a presença em massa do público foi a prova da fama e celebridade que essa “guerreira da arte performativa” (como gosta de ser chamada) construiu pra si mesma. Mas Marina não é do gosto de todos. Existem muitas críticas à ela e a seu trabalho, a principal sendo aquela que alega que Marina está apenas interessada em chamar atenção. De fato, atenção ela chama (não haveria como não chamar tendo feito todos os absurdos que já fez, puxando seus limites físicos e psicológicos em cada novo trabalho). No entanto eu não conseguia aceitar o argumento de que Marina fez tudo o que fez só pela fama e então resolvi eu mesmo checar com meus próprios olhos. Tudo o que sabia era que a sua nova obra, intitulada “Marina Abramovic: 512 Hours”, consistia em nada além de, por 512 horas, Marina, a Serpertine Gallery e o público. Segundo ela, a intenção do projeto era ver qual seria o resultado da interação de energia entre esses três elementos. Se o experimento seria um sucesso ou um fracasso não havia como se saber. Acordei as 7 da manhã imaginando uma grande fila na frente da galeria. Na manhã fria de domingo atravessei o Hyde Park até o pequeno casarão no meio do verde. Na porta umas 15 pessoas esperavam pela abertura. Cinco minutos para as dez, éramos por volta de 40 pessoas, nenhum de nós sabendo o que esperar. Foi quando viu-se surgir na recepção, pela porta de vido da entrada, Marina Abramovic, vestida com uma camisa branca toda abotoada, uma calça preta, cabelo longíssimo preso. Marina botou um pouco de perfume atrás de cada orelha e, depois de respirar fundo, abriu as duas portas principais da Serpentine Gallery. “Bom dia!”, exclamou em inglês. A fila começou a andar e a todos os visitantes que entravam Marina estendia a mão e nos dava um aperto firme, desejando as boas vindas a cada um. Quando foi minha vez olhei para seu rosto e tentei perceber tudo o que conseguiria naquela curta interação: suas sobrancelhas longas, seu nariz protuberante, seus lábios fartos, suas rugas aparentes (ela não usava nenhuma maquiagem). Marina é uma mulher comum e maravilhosa. Todos deixamos nossos pertences na entrada – inclusive nossos relógios, a noção de tempo ali era proibida. Tínhamos também de pôr um grande fone de ouvido para vedar qualquer ruído, aquela era uma experiência silenciosa. A galeria era dividida em três espaços. Os dois da extremidade estavam vazios, o do meio com diversas cadeiras em forma de quadrado e no centro um pequeno palco onde 8 ou 10 artistas meditavam de olhos fechados em um círculo. Os visitantes aos poucos começaram a sentar-se e logo quase todas as cadeiras estavam ocupadas, como se de fato um show fosse logo acontecer. Eu fiquei de pé, no fundo da sala. Nessa altura Marina também estava na mesma sala, apenas como mais um visitante, a espera de algo sem saber o quê. Foi então que ela veio em minha direção e, já ao meu lado, me ofereceu um grande sorriso e as palmas de suas mãos, como quem diz “vem comigo?”.  Eu fui e ela levou-me a uma das salas laterais, onde paramos juntos ao lado de uma das paredes. Marina sentiu meu pequeno nervosismo e novamente me ofereceu o mais sincero sorriso, dessa vez pude dizer que o que ela me queria passar era “fique calmo, eu também não sei o que estou fazendo”, e com isso finalmente ela me deixou confortável. Com um pequeno gesto, ela me pediu para que eu tirasse meu fone de ouvido. “Olá. Tudo bem?” – disse-me aquela que não mais parecia um ícone da indústria da arte mas apenas uma velha amiga. “A sua tarefa de hoje”, continuou, “será andar em câmera lenta. Eu quero que você atravesse essa sala andando o mais devagar possível. Quero que faça isso 7 vezes. A repetição é importante porque da primeira vez seu corpo estará lento mas sua mente ainda estará como uma Ferrari. Eu quero que seus pensamentos movam na velocidade do seu corpo, o seu objetivo é tornar-se o mais consciente possível de si mesmo. A primeira travessia faremos juntos”.  E com isso Marina pegou-me pela mão e atravessamos o espaço de cerca de 25 metros em 4 minutos. Quando chegamos ao fim, Marina pediu para que eu respirasse. Depois virou-se, tomou-me novamente pela mão e atravessamos de volta a sala. Quando voltamos ao ponto de onde saímos, Marina pediu-me “faça isso mais 5 vezes” e com um último sorriso foi embora orientar outros desorientados. O tempo que a tarefa me tomou pareceu uma eternidade, mas uma eternidade que eu tinha prazer de viver. Eu punha tanta concentração na medida de meus passos e na frequência de meus movimentos que o tempo de fato não importava. Ao fim de minha maratona, percebi que já éramos vários naquela sala cumprindo a mesma tarefa. Dei lugar ao próximo e me dirigi ao outro quarto. Na entrada, deram-me uma venda com a qual cobri meus olhos e então guiaram meus primeiros passos depois dos quais fui solto no meio do escuro, sem noção qualquer de onde eu estava ou de quem estava a minha volta. É incrível como uma ideia tão simples pode resultar em numa experiência tão enriquecedora. Privando-me de minha audição e visão, Marina me mostrou o quão dependente de meus sentidos eu sou. Quando não se sabe onde se está ou pra onde se vai a tensão é constante. Havia também no ar a eletricidade palpável da ânsia de esbarrar em um estranho. Caminhei devagar por alguns minutos sem que nada acontecesse. Raramente encontrava uma parede, sem minha visão a sala me parecia muito maior do que era. De repente as mãos de um desconhecido encontraram meu braço. O receio que eu antes tinha desaparecera completamente. Encostar por mais de alguns instantes em um estranho no metro ou em um ônibus lotado pode ser uma situação constrangedora para qualquer um, mas quando não se pode ver em quem se está tocando não há embaraço algum. O sentimento é de excitação por finalmente encontrar um outro alguém que encontra-se no mesmo escuro intimidador que você. A curiosidade aumenta e a vontade de descobrir o outro pelo tato (nesse momento o único sentido que nos resta) é muito maior do que em qualquer outra situação. Sem constrangimento algum, éramos todos iguais e percebíamo-nos à vontade. Por fim tirei minha vendo e me dirigi a saída da galeria. Antes de sair pude ainda ver uma última vez Marina, sentada com muitos outros nas cadeiras em forma de quadrado, de olhos fechados, em uma profunda meditação. Marina não era mais especial que ninguém e não tentava ser. Pelo contrário, ela estava ali como cada um de nós, deixando pra trás por algumas horas tudo o que entorpece nossos canais sensitivos e experimentando o que pode acontecer quando se para para fazer nada em conjunto. Marina gosta de fato de chamar atenção para si mesma, mas faz isso porque ela é a logo marca de seu trabalho. Todo o glamour e o renome que construiu pra si mesma ela deixa do lado de fora da galeria, juntos com todos os nossos celulares e relógios. Sem qualquer pretensão ou preconceitos, a artista estava mesmo presente.

Gabriel Abreu

domingo, 13 de julho de 2014

Auto-aperfeiçoamento


A todas as vozes de escárnio que vivem à espreita nas cabeças de cada um de nós, esperando por cada raro momento de inspiração pra poder nos dizer em alto e claro tom “Quem você acha que é pensando que consegue fazer isso? – a essas vozes toda nossa mais imensa gratidão. Pois no seu descrédito é que havemos de encontrar nossa autoconfiança. Que um projeto é ridicularmente ambicioso, que somos jovens demais ou velhos demais, que nada do que criamos é tão bom quanto achamos que de fato seja, que ninguém vai gostar do que vem de nós como esperamos que gostem, que buscar fazer o que sempre sonhamos fazer é uma perda de tempo e apenas um engano a nós mesmos: um desdém positivo. Que sejamos capazes de personificar essa censura e celebrar esse sabotador que vive em cada um de nós, pois somente dessa maneira poderemos sempre continuar nosso auto-aperfeiçoamento.

Gabriel Abreu

sábado, 24 de maio de 2014

aquela noite


Lembras daquela noite que passastes comigo? Quando as paredes do meu quarto eram o limite do universo e que infinito era apenas o nosso amor? Eu tinha você nos meus braços e apertava todas as partes do seu corpo pra poder dizer que eu era dono de alguma coisa, mas não adiantava, eu era seu e seu era tudo o que eu era. Parecia que o Sol nunca nasceria de novo, mas do seu sorriso vinha a única luz de que eu precisava. Debaixo do meu cobertor não havia espaço pra memórias ou planos, apenas pra certeza de que jamais nos sentiríamos sozinhos. Eu punha músicas pra tocar e você fingia que as escutava quando na verdade ficava me olhando cantar, sabendo mais e mais a cada nova melodia que eu era o homem pra você. E você era a mulher a quem eu dedicaria todas as minhas serenatas. Você me tornava humilde e era na sua simplicidade que eu encontrava a minha extravagante alegria. Era nos seus cabelos que eu encontrava a minha paz, nas suas mãos, o meu sossego, no seu colo, o meu propósito. Em silêncio nós nos prometíamos. Eu acho que aquela foi a melhor noite da minha vida.

Gabriel Abreu 

segunda-feira, 24 de março de 2014

Transporte Carioca/ Brasileiro

Serei sucinto. Nada de direito, apenas um desabafo.
Revoltante o sistema de transporte público do Rio de Janeiro, outro dia estava retornando do centro até o Jardim Botânico, mas, olha que legal, o Metro Rio estava paralisado na hora do RUSH!
Então em meio aquele formigueiro fui pegar um ônibus, superlotado.
Conclusão: 2 horas e 20 minutos neste singelo percurso. Eu poderia ir correndo que chegava antes, aliás, sim, eu saltei no meio e fui andando, porque esse governo cancerígeno não consegue promover um mínimo de transporte público decente. Precário, lixo, que só visa lucro, lucro e lucro, pois com mais motoristas e mais ônibus significa mais gastos, país, ou melhor, colônia de terceiro mundo.
Curiosidade: Na Suécia o imposto sobre sua renda é de 60%, se uma criança fica órfã, o Estado sustenta ela até a maioridade, se há um lugar onde não tem metrô ou ônibus, você completa um vousher e entrega ao motorista de táxi, que cobra do ESTADO!! Entre outras.
Torço para que essa copa seja um fiasco, torço mais para que milhares de Europeus e Americanos fiquem presos em metrôs ou desmontem de tanto ficar em pé no calor do ônibus em meio ao tráfego leproso, para todo mundo cuspir aqui e ver se o Brasil acorda.
Quando eu ver gringos da próxima vez em ponto de ônibus vou dizer: "Corram de volta pra casa, é serio".
Se eu fosse ministro do trasporte, iria desviar a verba toda, fazer mala preta, caixa 2 e iria tudo para o trasporte. Saúde e educação vem depois, porque isso de nada adiante se ninguém chega a lugar algum.

sábado, 8 de março de 2014

Terra

Que terra estranha é essa em que até meus sentimentos são estrangeiros? Em que não falo a língua de meus pensamentos e em que minha própria angústia não me faz sentido? Piso firme em um solo que não entende o meu caminhado, procurando um refúgio onde eu possa descansar sozinho. Tudo é novo e medonho, excitante e desconfortável. Só subo as ladeiras do dia porque à noite sei que exausto irei descê-las. Minhas únicas ladeiras que me fazem sentir saudades de casa. Casa que às vezes até esqueço onde fica. Meu coração então grita perdido no escuro de seu peito. No entanto, para minha sorte começa a chover fino e finalmente me acalmo, pois o cheiro de terra molhada é o mesmo seja ela estranha ou conhecida.
Gabriel Abreu

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Primeiro dia de faculdade


Outros agora vêm viver aquilo que uma vez já foi novo para mim. Conheço as suas incertezas, conheço os seus estranhos. Afligiram-me igualmente.  Senti o sopro do medo que agora os persegue, a pressa da excitação que agora os afoba. Já mirei a profundeza do abismo em que se salta ao desconhecido. Também já uma vez saltei como hoje eles saltam, sem garantias. Mas aquela era a hora que eu havia esperado por longo tempo e aquele era meu salto, meu destino. Destino que agora é vivido por outros. Vivem minha vida sem mesmo pedir licença. Vão vivendo sem permissão. É só então que percebo: aquela não é minha vida e também não é a deles. Aquela é apenas a ordem natural das pessoas. Perco o ar e me entristeço profundamente. No meio de tanta gente já não tenho mais lugar. O que pareceu ser minha história é agora a vez de outro. Esses terão também seu lugar tomado, mas isso agora ainda não sabem e não calha saber. Agora é o seu momento. Na cegueira de tanta gente eu fico abandonado de olhos abertos. Mas na multidão alienada ainda vejo alguns cujo sentimento finalmente entendo. Atrás dos heróis que nunca serão tão jovens como hoje seguem seus pais. Incessantes e orgulhosos, todos trazem consigo, finalmente vejo, um aperto no coração. Vencidos pela tal ordem da vida deixam seus filhos sozinhos pela primeira vez numa cerimônia despercebida. Não há tempo a se notar a alegria melancólica nos olhos daqueles que hoje cumpriram uma missão. Há muito a se viver e ninguém olha para trás. Mas saibam, pais de pais, que um dia todos percebemos que a ordem da vida é linda, mas por vezes muito triste. Hoje para mim foi mais um primeiro dia que tantos outros também viverão. O dia em que me dei conta de que todos dividimos destinos e descobertas, mas que nossos pais serão sempre só nossos. 

Gabriel Abreu