quarta-feira, 26 de setembro de 2012

meu sou


Queria eu também ser apenas o que se é.

À beira do Léman,
No arrebol da Romandia,
Me floresce no peito a certeza da vida.
E o segredo suíço é sabido,
À precisão da beleza,
À prudência da maravilha.

Minha desconfiança é plural, mas
o lago,
os alpes,
a neve,
e o nada dizem também respeito a mim.

Porque o mundo é dos apaixonados,
E a meu ver o que é se ser é ser assim.

Gabriel Abreu

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O prefácio das laranjas

No pátio da infância erguia-se uma laranjeira infinita. Dava sempre de boa vontade os frutos grandes que só se deixavam segurar com as duas mãos. Nem fazia questão que lhe subissem o tronco para arrancá-los: era partidária da não violência e simplesmente os deixava cair no solo. Viam aos montes, de modo que se não se prestasse atenção escureciam rapidamente e perdiam o sabor e a suculência. Não fazia mal, a planta não se incomodava de ter o esforço desperdiçado.  O importante era o suco de suas crianças. Dava também sombra em abundância. A grande mancha negra que lhe nascia pela manhã à esquerda a rodeava conforme passava o dia, como um siamês vigilante debruçado sobre a grama. Morria junto com o sol, alongada na outra extremidade do terreno, deixando mais uma vez a irmã solitária na penumbra das seis. Os ventos loucos do interior começavam então a soprar-lhe as incontáveis folhas, que gritavam alucinadas num caos frenético até o cair total da escuridão. Conseguia finalmente descansar os galhos violentados no sossego dos grilos cantantes, instigados pela coaxa das rãs, até que vinha mais uma manhã, quando começavam de novo os meninos a trepar-lhe a estrutura. Estava enraizada numa parte mais alta do quintal e viera à família com o terreno. Não se fazia ideia de sua idade, mas seu espírito era incansável. Laranjada após laranjada viu os noivos recém-casados se mudarem e começarem família, viu suas quatro meninas, uma a uma, nascerem e crescerem, as viu deixando a casa, retornando com sua própria prole. Viu surgir no correr de algumas gerações um emaranhado de parentes, de pais e sobrinhos, de sogras e cunhados, de tios e genros, de primos de intermináveis graus, todos seus afilhados. Viu plantarem afeto, colherem desavenças. Estava presente nas brigas, nas paixões. Presenciou todas as festas, entediava-se também aos domingos. Recebeu primeiro o patrono da estirpe quando ainda era jovem. Já era grandiosa na época, mas seu jardim era baldio. O moço tinha uns olhos azuis bondosos que pareciam cansados, mas que exibiam também um brilho tímido que as laranjas adivinharam ter por causa do matrimônio recente com a jovem que vinha ao seu lado. Ele pousou a palma da mão em seu caule largo e fechou os olhos pra acolher dali em diante o seu novo destino. A árvore fez o mesmo e foi pra sempre feliz. Anos depois houve uma tarde em que o sol estava em seu pino máximo, cegando a todos em pleno verão gaúcho. Passava pouco do meio-dia e como em todos os outros dias de verão quente a família se escondia na sombra fresca da casa em um meio sono depois de almoçar polenta e guisado. Como em um serpentário de jiboias bem alimentadas, todos descansavam ainda com o gosto da farinha de milho na boca. Estavam de férias. No pátio se estendia também como gente a cadela centenária, à qual faltavam quase todos os dentes, mas ainda eram pretos todos os pelos. Roncava alto perto do roseiral donde brotavam, apesar do janeiro abrasador do Rio Grande, as mais belas rosas da cidade, vermelhas de sangue em sua maioria, mas brancas em alguns poucos espaços, essas ainda maiores que as outras, como que para guardar o segredo da indecência rubra. Logo ali existia um parreiral que fora sempre cultivado pela jovem mulher do moço de olhos azuis, agora já uma anciã dona de diversas rugas, debaixo das quais, no entanto, exibia ainda o mesmo semblante forte de antigamente. Suas uvas verdes por natureza davam sempre impressão de pouco maduras, até que seu gosto gelado provava aos que se atreviam a brigar por elas com as abelhas que de fato as aparências enganam. Atrás, uma piscina modesta que na imaginação oceânica dos meninos virava mar. Ainda existia um pequeno terraço onde se subia por uma escadinha erguida ao lado da pequena horta e onde se estendiam roupas e sonhos, ambos tendo que dividir espaço com a antena monstruosa de televisão que com o tempo passou a servir para nada, mas que dali ninguém nunca tirou. Dali as crianças pulavam para o telhado da casa, laranja árido da mesma cor dos tijolos, o que dava à construção uma aparência Severina. No meio das telhas equilibravam-se três ou quatro chaminés que liberavam no inverno do Sul a fumaça do calor das lareiras. A parte em frente à casa era, como na maioria das residências do estado, um jardim de fachada, feito para os passantes, aos quais eram exibidos os mais bem cuidados arbustos, as mais coloridas violas tricolor, e as mais abundantes genistras, todas numa vitrine verde de paz e boa vizinhança. Ali as mulheres sentavam às tardes, de cuia cheia até a boca de erva mate e curiosidade absoluta para a vida dos outros. Na parte de trás da casa, onde tudo de fato ocorria, para delimitar a divisão entre grama e pedra, foi construída pelo próprio dono uma mureta de contenção, por que a terra de onde saiam as raízes da laranjeira vinha em nível mais alto, e o homem sentiu que não seria capaz de arrancar do solo o ser com o qual fizera um voto eterno de felicidade. Aquele murinho acabou virando palco de muitos espetáculos, onde as crianças interpretavam comédias e sofriam acidentes. Quase caindo também de cima do muro estava a laranjeira, que na tarde de que quase esqueci que estávamos falando descansava como o resto de sua família. De manhã haviam se pendurado em seus galhos e espremido os frutos da queda, haviam brincado em sua sombra e se apoiado em sua fortaleza. Haviam admirado suas folhas verdes máximas, seu tronco de cascas secas salientes, seu esplendor de vegetal maciço. Haviam como sempre na vida a usado de instrumento de regozijo. Ela não se incomodava, era esse o seu destino, seu alento, e também seu prazer. Gozava das risadas de suas crias, das conquistas de seus filhotes, da esperança de seus companheiros. Disfarçada na natureza do quintal plantou no cerne daquela família uma semente que germinou laços. Serviu a todos como se fosse a única coisa que soubesse fazer. A única coisa que soubesse fazer de melhor. E quando não servia mais pra nada, serviu de lenha pro calor da fumaça das três ou quatro chaminés do telhado laranja. Então até o final da fogueira e para o resto de sua vida protegeu seus meninos do frio.

Gabriel Abreu

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Como uma onda no mar


Quando volto à metade de algo que já teve fim me pergunto, por que começa? Quando ouvi pela primeira vez Lulu Santos dizendo que nada do que havia sido seria de novo do jeito em que um dia fora desliguei o rádio de onde saía aquela vil profecia. Dizia que a música era pobre de letra e enjoativa de melodia. A partir de então nunca fui muito com a cara de Lulu, cuja música ecoava em minha cabeça toda vez que algo - ou alguém - importante para mim parecia começar a ser levado pela correnteza, como uma onda no mar. O que não me ocorrera então era que nascido Luiz Maurício Pragana dos Santos, no Rio de Janeiro, como eu, Lulu era apenas mais um homem tentando expressar o que sentia e tinha certeza que outros sentiam também.  Lulu nasceu humano, fato que lhe facultou, entre outras coisas a introspecção, a consciência e a linguagem. Por isso, Lulu pôde interagir, não apenas com outros Pragana dos Santos, mas com qualquer um que encontrou seu caminho. Nesses com quem se deparou durante sua existência estão os relacionados de sangue e alcunha, mas mais particularmente os de carinho e afeição. Lulu teve amigos, teve amantes. Lulu riu à falta de ar, odiou a raiva que lhe consumia o espírito e energia, apanhou dos ciúmes que lhe amargaram o coração, confiou como herói sem contrato, amou transcendente quem lhe fez capaz de emoção, não lhe importava qual. Lulu foi pessoa por que teve de sê-lo. Não se sabe se preferia ter vindo à Terra vaca. Talvez preferisse ruminar grama ao invés dos diversos sentimentos aos quais foi servido. Todos os sentimentos dos quais é senhor e escravo, é descanso e desejo, e que, pela mais traiçoeira das pirraças da vida, passam. Quer os odeie, quer os ame, quer junto a eles ser constante, sua onda estoura e uma espuma nostálgica se arrasta pela praia. Lulu nunca quis me magoar. Ele era apenas o aviso da espécie que dizia que por mais ricos de sensações que todos somos, nunca seremos de novo do jeito que já fomos um dia. Lulu era gente que, como eu e você, queria boiar pra sempre na crista da onda, mas que acabou levando um caldo do mar.

Gabriel Abreu 

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

do amoroso lençol


Enquanto ele respirava o rosto dela subia e descia com a oscilação do peito largo em que deitava. Aquele leito bruto era o descanso mais seguro que poderia encontrar em todo mundo. Aquela pele quente, aquele cheiro conhecido. Seus longos cabelos negros escoriam pelo ombro forte dele, seus braços descansavam na cintura morena enquanto as mãos femininas se arrastavam pelo abdômen que sorria, as quatro pernas enroscadas entre si, as intimidades se espiando. Ela sabia que se dali nunca mais saísse seria feliz para sempre. Isso seria possível. Ela se nutriria da áspera tez dourada, se sustentaria da respiração descansada tão característica que ele tinha, se agarraria naquele tronco sossegado de carinho e amaria eternamente o homem que a fez mulher como nunca o foi. Disso ele sabia também. Sabia que aquela era sua única aquela que poderia lhe fazer satisfeito. Sua sede de tudo na vida adormecia nos seios sinceros daquela mulher. Ele olhava para os seus olhos cor e cheiro de castanhas. Fitava o nariz desajeitado, lar da pintinha escura pela qual se apaixonara. Mirava a boca em que se perdia e suplicava nunca mais se achar. Desejava-lhe de corpo, de alma, e de mais do que todo o possível  resto. Amavam-se juntos, depois um ao outro e por fim a si mesmos. 

Eles continuaram os dois na inércia da cama sem respirar. Até que ficaram sem fôlego, e nada nunca mais foi o mesmo.  

Gabriel Abreu


domingo, 22 de julho de 2012

do indicativo, perfeito?

E que dure enquanto seja eterno.

O quão adolescente pode ser um romance? Quão irresponsáveis podem ser uns adolescentes brincando de paixão? E uma paixão, até que ponto resiste ao amor? Difícil saber as verdades desses dois sentimentos. Mais difícil ainda é definir essas palavras em si. Basta procurar em um dicionário qualquer que se acham apenas linhas exaustas de explicações contraditórias. Se bem que não acho que a realidade esteja muito afastada disso. Talvez tenha sido exatamente essa a intenção do sábio Aurélio: mostrar o quão confusos são seus significados. No entanto, ao invés de me frustrar, a abundância de definições me deixa satisfeito. Fico feliz por saber que já me passaram pelo coração esses conjuntos simultâneos de sinônimos que honraram o guloso orgãozinho. Gosto muito da tentativa do velho Quintana – que saudade! – que escreveu: “Amor é quando a paixão não tem nenhum outro compromisso marcado”. Pois é. Paixão é quando, de inesperado, os sentidos se viciam, o espírito se torna lúgubre, o corpo obedece outro alguém, a razão se desvaira, quando a solidão vem sempre narrada de memórias frescas, quando se acorda todas as manhãs com uma geada de alegria recém caída no travesseiro. Amor é quando isso se torna rotina. Triste, por fim, é que de rotina, mesmo que amada, a gente cansa.

Gabriel Abreu

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Borboleta

Amizade nasceu do casulo do amor,
Da afronta da dor, da esperança do abril,
De botar nas palavras a paixão tão febril,
Que por si mesma sente.

Entende-se inteira,
Não acha ligeira,
A própria existência.

Não colhe ilusão,
Joga ao coração,
Angústia alheia.

Encara o desgosto,
Traz firme no rosto,
Magoada coragem.

E carrega gentil, em constância viril,
A riqueza do afeto, do carinho direto,
Escondidos em cada lagarta.

Gabriel Abreu

segunda-feira, 4 de junho de 2012

sem palavras

Sinto que as palavras me traem. Só me vêm as baratas e oferecidas, que vadiam os cantos óbvios da criatividade. As afoitas de antes já não me visitam mais. As palavras me traem, mas traí-as primeiro. Consome, o amor por essas coisinhas. Te requer de inteiro, é carente de dedicação e compromisso. Tem de se ser delas pra que elas tuas sejam também. Tem de se falar por elas, ser pra sempre a expressão do escrito. E querer sê-lo mais do que qualquer outra necessidade. É difícil, mas me satisfaz.  Me faz também, me salva também, muitas vezes. Peço o perdão das palavras, que não só me eternizam, mas também me colorem o mundo e perpetuam tudo que há dentro dele.



O dinheiro é sujeito à arte, e da arte vencedor. Se apenas duvidássemos mais dele. Duvidar de nós mesmos. Duvida da vida? Duvido. 



domingo, 22 de abril de 2012

R.G.A., 3ª da série

 Estive revendo os últimos comentários feitos no blog. Me chamaram atenção, no texto do Gabriel que fala sobre seu momento de epifania nas cataratas do Iguaçu, alguns que me fizeram pensar. Discutir religião e afins não costuma ser uma boa opção, mas quem se importa?

 O ponto de partida foi o Gabriel sendo tocado por Deus no mirante, vendo uma cachoeira. O que induziu o tema: elementos grandiosos da natureza, ou grandes fenômenos naturais, como já comentou em outra ocasião, servindo como prova de Sua existência. Que por serem bastante simples, foram substituídos por coisas mais complexas e elementares na evolução do raciocínio: a alta complexidade e falta de conhecimento sobre determinados elementos principais do ser humano, da vida, do universo, servindo como prova de Sua existência. Aliás, "provas inexoráveis que a ciência tanto acusa as religiões de não possuírem", segundo Gabriel. É nesse ponto que eu sou obrigado a interferir. Sob meu ponto de vista, algo por si só não serve de prova, muito menos inexorável, tanto para as teorias religiosas quanto científicas. O princípio de que o universo, o mundo, o cérebro humano, a célula, o átomo são complexos demais para terem sido criados por acaso é completamente inválido.

 A origem do universo é desconhecida. Existem centenas de teorias que a tentam explicar, porém nenhuma delas é provada. Acho que as leis da física, a estrutura dos átomos, a vida, sempre serão os maiores mistérios de todos. Acho inclusive uma pretensão imensa pensar que tem a resposta para qualquer uma dessas perguntas. Deus. Deus explica qualquer questionamento sobre a existência. Deus aniquila a filosofia. Apesar de que Deus é um conceito muito amplo. Para deixar claro, eu estou falando daquele onisciente, onipotente, onipresente que criou o mundo. Bem, vou discutir logo os pontos principais.

 A prova da existência de Deus através da complexidade do ser humano, da vida, dos ecossistemas e afins.
Muito se fala do cérebro humano como se fosse impossível ser fruto do acaso, e que só um ser divino, perfeito, oni-tudo poderia criá-lo. Eu penso que ele é fruto de dois bilhões de anos de evolução. Que ele veio do cérebro menos desenvolvido do macaco, que veio do menos desenvolvido de um mamífero longínquo, que veio do menos desenvolvido de um réptil, que veio do menos desenvolvido de um anfíbio, que veio do menos desenvolvido de um peixe, até que chegamos aos seres unicelulares, desprovidos de cérebro. Aí entra o argumento: "Qual é a chance de evoluir exatamente da maneira que condiciona todas as capacidades e a complexidade do nosso cérebro? Alguém no mínimo teve que intervir." A chance de acontecer uma mutação aleatória que torne um indivíduo mais apto para a sua sobrevivência, e que ele consiga passar essa característica adiante é ridiculamente mínima, porém, como eu disse, tivemos dois bilhões de anos desde o surgimento da vida para conseguir isso. De 0,1% em 0,1% de probabilidade ao longo do devido tempo, podem-se construir as formas mais complexas de vida. Me parece totalmente plausível.

 A prova da existência de Deus através da existência da vida.
"Porque é impossível que a vida se crie sozinha, por acaso." De novo, tivemos 2,5 bilhões de anos desde o surgimento da Terra até o surgimento da vida, nos quais zilhões de átomos e moléculas se combinaram de zilhões de formas diferentes, tornando, para mim, completamente possível o surgimento de material genético. E convenhamos que a forma mais simples de vida que acreditamos ter existido, eu diria uma bolota com genes dentro, não é algo muito difícil de se conseguir.

 A grande questão é que qualquer teoria científica, inclusive a Evolução e o Big Bang, que são aqui relevantes, é formulada com base em inúmeros dados, números, pesquisas, estatísticas, sobre os quais são tiradas conclusões lógicas. Porque existe um abismo gigantesco de evidências que separa uma teoria aceita em quase todo o meio científico de um idiota falando besteira. E falar besteira é muito fácil. Não digo que é o caso, mas não consigo ver sentido em passar da observação direto para a conclusão, pulando a parte das hipóteses, coleta de dados, testes e tudo mais. "O cérebro é complexo, logo Deus criou o mundo", "O comportamento físico do elétron é contraditório e desconhecido, logo Deus criou o mundo", "A cachoeira é grande e faz barulho, logo Deus criou o mundo" (né, Gabriel?) pra mim são frases absolutamente sem sentido, e elas descrevem exatamente o que me parece quando me falam sobre provar que Deus existe. 

 Aliás, eu acho conveniente inverter esse argumento da complexidade. Eu acho que tudo é complexo demais pra ter sido criado. Faz mais sentido pensar que o mundo e a vida como conhecemos foram lapidados ao longo do tempo, pouco a pouco, detalhe por detalhe, e gradativamente formaram essa obra de arte que nos cerca, do que pensar que alguém muito foda estalou os dedos e criou o universo. É como uma pintura não ter sido pintada, uma música não ter sido composta, um prédio não ter sido erguido, simplesmente ficarem prontos.

 Para finalizar, deixo claro que tenho consciência de que, igualmente, as teorias citadas não em prova, só fazem mais sentido para mim, e de que os dados são muito imprecisos, existem muitas especulações diferentes sobre a idade da Terra e o surgimento da vida. Também entendo que Deus, ou alguma Força sobrenatural podem ser vistos de muitas formas diferentes, e talvez eu tenha puxado para a que mais me foi conveniente, ou a que mais contradizia com o que estava tentando dizer, a fim de reforçar meu argumento, o que pode até ser contraditório, pois posso ter tratado de Deus sob pontos de vista diferentes ao longo do texto, e por isso me desculpo. Só espero que tenha dado para entender.

domingo, 8 de abril de 2012

Que é pro mundo ficar Odara


Num domingo público, Marcos sentou num banco chuvoso da General Osório. A praça estava vazia, eram Marcos, uns poucos mendigos e umas pombas gordas. Ele desenterrou um cigarro do decote e o acendeu com um dos fósforos da caixinha que trazia na minúscula bolsa dourada. Mal chagara às cinco da manhã, e já não era mais Odara. Odara havia ficado na noite, onde ele sempre a encontrava, deleitada no direito da imaginação, desnorteando a realidade. Agora restavam-lhe apenas o forte batom borrado que lhe irritava os lábios, a vulgar meia-calça rasgada há tempos, um orgulho pouco e o gênero que carregara a vida inteira. Marcos já sacava o segundo cigarro quando percebeu uma mulher indo trabalhar. Levava uma sobrinha e uma mochila pendurada nas costas. Vestia roupas simples, e apesar dos culotes salientes e dos seios pequenos era uma moça bonita, de cabelos fartos e feminilidade importante. Marcos pousara sem perceber as corajosas mãos nos peitos caros. Brotou-lhe então dos olhos desbotados, que ainda fitavam a moça, uma lágrima carente. Uma pétala de vontade que exibia aos pedintes e aos pássaros um estranho evidente, um desorganizado sentado na garoa de Ipanema que havia sempre na vida procurado a ausência do poder que lhe era justamente muito presente. Quando a menina sumiu numa esquina, Marcos enxugou como um homem a gota do rosto maquiado, empréstimo de Odara, e se levantou do banco, acendendo por fim o terceiro cigarro. Bruta flor do querer, de expediente terminado,  foi pra casa cambaleando sobre os saltos finos. 

domingo, 1 de abril de 2012

o gergelim de domingo


Pobre Caio, não conseguia mais escrever. Tinha a caneta e o papel, mas faltava-lhe a força nos dedos. No mundo a coisa que lhe dava mais prazer era agora aquilo do que justamente era privado: o prazer da manifestação. Um pequeno refúgio dos homens no qual não era mais gado. Não era enganado e contava a verdade aos outros. Onde o despudor era palpável. Onde o poder era entusiasmo, com que se fazia prodígio. Onde a excitação, que por mais que presente apenas no ato, era o alicerce de sua alegria e o gergelim de seu próprio ente. Mas tão simplesmente assim, escapara-lhe o dom. Deixara escapar. Extraviara o rosto debaixo da maquiagem que dava o cunho à atuação.  Sentia-se agora humilhado, com vergonha de si mesmo. Tornou-se ordinário e rotineiro. Covarde que era, prestava ao trabalho e aos querentes, preso na ignorância do Mundo, ciente de que o mundo na verdade não tem nome. Mas não de propósito, era apenas um coitado mudo. Às vezes ainda jogava-se ao mar e, sem atentar à sujeira, mergulhava fundo a cabeça na água. Ali ainda conseguia uns longos resquícios do que sentia falta. Na superfície do corpo uma indolência forçada. Era os restos apáticos de um rapaz feliz, boiando sozinho. Percebendo pelo dentro das ondas a pulsão criativa da natureza. Até que era obrigado a outra vez buscar no exterior o fôlego que não encontrava mais dentro de si.