sábado, 5 de junho de 2010

Reflexão

-Defina tempo.
-

terça-feira, 1 de junho de 2010

Agonia do hoje

O dia da agonia é todo o dia. É hoje. Foi o hoje anterior. E o hoje antes desse. E o seguinte. E o passado. E desses hojes não saímos. Nunca. Pois pelo ontem nunca passamos, e no amanhã nunca chegaremos. É só hoje. Sempre. Agonia desse hoje que não acaba. Desse hoje em que nascemos, em que vivemos, em que morreremos. E o tão sonhado amanhã, nunca. O amanhã em que as coisas não mais serão as mesmas, nunca. O amanhã que não é hoje, nunca.
Sempre, sempre hoje.
E a agonia do ontem com o qual nos iludimos por ter vivido em outro dia. Conversa apenas. Quando foi, foi hoje também.
Sempre, sempre hoje.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Monólogo do Rato

Estou sobre chão, entre paredes, sob o teto, ante a porta. Abro-a. Caio. Caio. Caio e chego ao chão: o mesmo chão de antes.

Me recupero, estou novamente sobre o mesmo chão, entre as mesmas paredes, sob o mesmo teto, ante a mesma porta. Me pergunto sobre o mistério da porta. Abro-a novamente. Caio. Caio. Caio e volto ao mesmo chão.

Olho atrás, nada. Olho para cima, nada. Estou perdido. Encaro mais a porta. Abro lentamente, quando chego na metade, caio. Caio. Caio e volto ao mesmo chão. Doeu mais! Um rato!!

O rato é a minha salvação! Caço e ele se esgueira. Prendo o rabo ao chão e pego! Súbito clarão e ele some. Recorro à porta. Abro-a. Caio. Caio. Caio e bato ainda com mais força naquele mesmo chão! Procuro o rato. Acho.

Resolvo observar o seu comportamento. Ele caminha sem rumo, durante um bom tempo. Até que percebo que me nota e vem na minha direção. O rato me dará a salvação. Me cheira, me toca: súbito clarão e ele some.

Se eu caio e chego ao chão, tenho que passar pelo teto. Como chegar ao teto? Droga! Só tenho a porta. Lá vou eu, imaginando qual o mistério da porta. Abro-a e espero. Ela se fecha. Abro-a e olho atrás. Nada. Pulo. Caio. Caio. Caio e me estabaco no maldito chão! O maldito rato continua indo a lugar nenhum, fuçando os cantos a troco da nada.

Os cantos.... Vou fuçar também. Tem um rodapé. Toco e a luz se apaga. Que luz? Ela volta. Toco na parede. Ai! Tombo.

Me recomponho. Estou sobre a parede, entre paredes, sob outra parede, ante o chão. Olho atrás, o teto. O rato no chão, a porta do lado, de lado. Tenho acesso ao teto!!! Toco no teto, caio no chão.
Toco na parede: nada. Toco no rato, ele some. Porta? Única opção.

Tenho agora hematomas. Toco na parede. Estou sobre a parede. O rato perambula: me irrita. Toco no rato, ele some. Minha visão já cansa dos clarões.Toco no rodapé, a luz se apaga. Toco no teto. Estou sobre o teto, entre paredes, sob o chão, ante a porta invertida. Abro-a. Caio. Caio. Caio, espero pelo pior e acabo na cama.

Minha cama aconchegante, tudo não passou de um sonho. Espreguiço, o clarão do dia me ofusca a visão. Procuro a porta com o tato, abro-a, tropeço no rato, caio sobre o rodapé e a luz se apaga.

Acende, me levanto: estou sobre o chão, entre paredes, sob o teto, ante a porta. Me parece familiar, aonde será que ela dá?

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Metalinguagem

Comemoro o novo gransiosíssimo surto de popularidade do site (dois novos adeptos). Me fez recordar a trajetória do blog pelos anos. Lembro que, no início, Thiago era tão participativo quanto eu, senão mais. Nossa intenção era voltada para assuntos mais particulares, que quem não nos conhecia não entenderia. Em algum momento, ele, aleatoriamente, decidiu mudar a fachada do nosso blog, o que impossibilitou os numerosos fãs de mostrarem sua calorosa apreciação por meio dos comentários. Voltamos ao modelo antigo. Devo ressaltar que, nessa passagem para o "novo estágio", algumas postagens minhas foram, talvez justamente, deletadas. A partir de um ponto indefinido, comecei a tratar dos problemas (ou satisfações) pessoais de um modo geral, com textos voltados para qualquer coisa que leia, não mais só os próximos.

Lembrei-me subitamente da minha passada obcessão pelo crepúsculo. Ainda tenho um certo fascínio, só não tenho vontade de escrever.

Sobre a ultima sequência desgraçada devo fazer alguns comentários. Diferentemente de algumas semanas atrás, tenho agora algum respeito pelo movimento modernista. Tal absurdo (pra quem assistiu às minhas aulas de português), se deve a uma conversa que tive com um sábio:
-Pai, você gosta do modernismo?
A resposta foi positiva e relacionada a poemas-piada, poemas livres e afins. Quando expus minha opinião oposta, fui recebido com:
-Por quê? Você não gostou de Manuel Bandeira??
-Eu não vi muita coisa dele.
-Eu considero ele um dos melhores poetas brasileiros, senão o melhor!
Depois de indagar o porquê e ouvir uma análise superficial de sua obra, veio a primeira frase que me desviou um pouco a opinião a favor do modernismo:
-Fazer poemas livres é muito mais difícil que fazer poemas rimados.
-Não!!!! Por quê????
A segunda frase:
-É preciso se conhecer muito de rima e de métrica para fazer um poema livre.
Em sequência, a terceira:
-A poesia precisa de um...... ritmo, e você dar isso sem rimas é muito mais difícil.

Tais palavras, vindas da boca de um poeta, significam um tanto.
Encerro a retrospectiva/explicação.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Sequência desgraçada de poemas modernistas que qualquer ser humano é capaz de fazer

Como não tenho leitores com menos de dez anos, libero o uso de palavrões. Não que eu realmente os vá usar...

O gramático

Todos discutiam
O cara chegou
E disse
"fodam-se".


Twitter

Alguém que não fazia nada da vida
Imaginava se todos eram assim.
A única coisa que fez na vida
Foi um site.


Irene no céu

Irene branquela
Irene idiota
Irene sempre rodando bolsinha

Imagino-a entrando no céu
- Foda-se, seu preto
E São Pedro bonachão
Nem reparou pois ouvia heavy metal.


Aula de português

Passei a vida imaginando
o que se precisa ter
para ser um poeta.

Vocabulário...
Sensibilidade...
Criatividade...
Genialidade...

Aprendi que se precisa ter
Uma mão.


Dedico-os a dona Fátima.

sábado, 24 de abril de 2010

Prazer

Após férias intermináveis, resolvo fingir que não negligencio meu (quase não mais do Thiago) blog. Tive algumas ideias, mas não desenvolvi nenhuma. Em breve virão ao conhecimento de todos os leitores (se é que resta algum).

Prazer é uma palavra, pra mim, sem definição convincente: 1 Alegria, contentamento, júbilo. 2 Deleite, gosto, satisfação, sensação agradável. 3 Boa vontade; agrado. 4 Distração, divertimento. Discordo de tudo. O que define uma atividade prazeroza não é necessariamente o que ela proporciona enquanto é executada, e sim, necessariamente, a vontade, necessidade que ela nos causa de repeti-la. Não se gosta de chocolate, necessariamente, porque enquanto se come chocolate se sente alegria, contentamento, júbilo, deleite, gosto, satisfação, agrado, seja o que for, mas sim porque depois de comer chocolate, se sonha em repetir a ação.

O "necessariamente" se explica pelas excessões: é claro que em determinadas ocasiões gostamos do que estamos fazendo e obrigatoriamente quereremos fazer de novo. Essas excessões seriam absolutamente prazerosas, logo raras. Prazer absoluto é sublime. Prazer comum é ordinário. São antônimos.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Carta depressiva

Sou um nada. Sou só mais um. Aliás, só menos um. Sou o lixo tóxico da humanidade, o resto do resto do resto de um projeto de ser humano.

Mais insignificante que o estrume de teu cachorro, que um fio de teu cabelo, que um ponto no plano cartesiano. E não um ponto que é solução de equação, nem um do eixo x, nem do y. Não chego a ser nem um daqueles que são tomados como exemplo aleatório de coordenadas. Sou o ponto esquecido, ignorado, remoto, que nunca será olhado. Sou o lixo tóxico da humanidade.

Sou o mau amigo, a ovelha negra da família, a vergonha da sociedade. Mais indesejável que a barata que te sobe a perna, que o terremoto que te destrói a casa, que o tapa em tua cara. Sou o cisco no teu olho, a artrose em teu joelho, a catapora em tua pele. Mais odiado que o diabo pela religião, que o golfinho pelo tubarão, que os judeus por Hitler. Sou o lixo tóxico da humanidade.

Sou o esquecido, o incompetente, que para nada serve, que ninguém ajuda, que não conhece boa ação. Sou o início do fim do mundo. Aquele que merece ser sacrificado, morto, apredejado. Aquele que não faria nada melhor do que sumir para sempre. Sou a pedra no meio do caminho da sociedade, sou o atraso do desenvolvimento. Se a alguém causa inda pena a minha chaga, esse alguém sou eu. Desprovido de compaixão, de solidariedade, sou o lixo tóxico da sociedade. O resto do resto do resto de um projeto de mau ser humano.

Sou por ti odiado, mesmo que não saibas, pois motivos para não o fazer, não há. Sou a mosca da sopa, a gravidez indesejada, a frigidez, o aborto. Sou a causa de todos os teus maus, todas as tuas falhas. Minha existência atrapalha tudo e todos. Sou o erro da natureza, o errante da natureza! O escarrado e apredejado, o ignorado, despercedibo, o crucificado, o indesejado, o insuportável, o anti-ético, o fora-da-lei, e incontestavelmente com razão. Sou o resto do resto de um projeto de lixo tóxico da sociedade.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

T. C. O., 5º da série

Divago hoje sobre as desilusões. Sejam elas as piores, ou mais suportáveis, as mais banais, ou as mais marcantes. Afirmo, pois, que desilusão boa não existe. E que as piores são justamente as mais banais. Menos dói ser deixado por um grande amor do que observar que o trajeto da sacola plástica flutuante não correspondeu às expectativas. Há, de certo modo, um grande preparo para as grandes desilusões, o que torna grande as pequenas. Fim de semana importante, grande festa ao ar livre agendada, e chuva. Todos sempre tiveram consciência dessa possibilidade. Todos ficam desiludidos por fora, reclamam, xingam, lamentam, mas por dentro há total conforto. Relacionamento importante, grande festa ao ar livre agendada, e fim. Ambos sempre tiveram consciência dessa possibilidade. Ambos ficam desiludidos por fora, reclamam, xingam, lamentam, (ou pelo menos um, o outro fica desiludido por baixo da pele) mas por dentro (lá dentro) há total conforto.

Não se valoriza as situações cotidianas! Computador importante, grande carregamento de página agendado, e demora. Todos sempre tiveram consciência dessa possibilidade, mas não aqueles que a isso não estão acostumados. Nestes a ferida é maior do que aquela do fim de semana, do relacionamento. Costume é a chave. O costume nos cria ilusões que ao serem desfeitas, desfazem parte da alma.

Já pude pensar que personalidades são determinadas por grandes acontecimentos. Percebo hoje que estes apenas despersonalizam aquilo que o cotidiano teve o trabalho de personalizar. A rotina faz o ser humano. Aquilo que dela se exclui, o desfaz. A rotina desgasta o ser humano. Aquilo que dela se exclui, o gasta. Uma quebra inesperada da rotina determinante, acaba por indeterminar. Exatamente aquilo que a não-rotina é encarregada de fazer. Ela, por sua vez, quando outros rumos toma, acaba por determinar.

As grandes desilusões nos põe nos eixos, deveríamos agradecer, não lamentar. Mas sim lamentar pela mensagem não recebida, pela partitura que cai no chão, pelo desafino. E o coração que bate nestes peitos, que continue, como sempre, a rotinar as não-rotinas, a transformar em pequenas as grandes desilusões, a rotiná-las e finalmente tornar insuportável a sensação de não tê-las.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A grande diferença entre a gente

Existem quatro tipos de pessoas, segundo os dois seguintes critérios:

Primeiro:
Existem as pessoas que ouvem a música até o final.
E as que mudam para a próxima no meio.

Segundo:
Existem as pessoas que olham para o céu estrelado e pensam: "Amanhã vai dar sol."
E as que olham para o céu azul ensolarado e pensam: "Hoje à noite vai ter estrelas."

Nada mais a declarar. Também nada há que diferencie melhor as pessoas.

domingo, 13 de setembro de 2009

Descrição de uma cena

Então, o momento mais esperado do dia: Ela adentra o recinto. Acaba com toda a angústia, toda a ansiedade, todo o desespero. Olha fixamente. Não desvia o olhar. Não pára de olhar. Olha profundamente. Olha profunda e fixamente. Olha, profunda, fixamente. E caminha. Dou um dó. Pára repentinamente. Comprimenta, ainda fixamente. Fixamente. Só fixamente. Impressiona os demais, pela sua capacidade de ignorar qualquer outro fator que não aquele que mira. Já conversa, descontrai. Dou um ré menor. Enquanto os outros, fantasmas. Fantasmas decepcionados. Fantasmas impressionados. Fantasmas. Fantasmas que não gostam de ser fantasmas, e que ainda não se comformam por serem fantasmas. Dou um sol. E me incluo nos fantasmas. Indignado, me incluo nos fantasmas. Aliás, só eu me incluo nos fantasmas, sou o único. Que observa atentamente a cena, ainda como um fantasma. Dou ainda um fá menor. E Ela continua fixa. Impressionante. Ainda não se destraiu, ainda não desviou a atenção de seu alvo. Ainda não tomou nenhuma atitude que merecesse algum comentário. Temendo que a situação se prolongue por muito mais tempo, termino aqui com um dó menor.